Escritoras da periferia: a palavra como ato de resistência

A literatura brasileira foi, predominantemente, construída pelo discurso masculino. O homem branco, heterossexual e de classe alta teve mais acesso aos recursos necessários para a criação literária. Neste cenário, por muitos anos as mulheres acabavam como pano de fundo e sendo representadas a partir de uma ótica masculina.

Os anos passaram e com muita luta grandes autoras conseguiram espaço, se estabelecendo no mercado literário. No entanto, ainda que esse cenário tenha passado por uma transformação, há um longo caminho pela total valorização do trabalho delas. Mesmo com todo o avanço, o trabalho literário de mulheres ainda não recebe tanta atenção quanto o produzido por homens. Uma visão enraizada no machismo, sem dúvida.

Se fomos a fundo nessa questão da literatura produzida por mulheres e fizermos um recorde de classe, encontraremos uma produção de alta qualidade e ainda pouco valorizada pelo mercado editorial: a realizada por escritoras periféricas. Além de ter que enfrentar o machismo, elas também lidam com o preconceito de classe e de raça. Mas não se engane, nenhuma dessas barreiras as impedem de continuar produzindo e lutando, já que para elas a arte é um ato resistência contra as opressões.

“A criança negra não tem como usufruir de um psicólogo, a cada vez que tem uma frustração, ou permear algo sensível. Seus pais com preocupação de proporcionar o alimento também não atendem. Então, eu tinha [que lidar com os problemas] com as linhas de um caderno. Eram diálogos antes de eu entender que eram poesia”, explica Thata Alves, poeta.

Para as escritoras da periferia, cada palavra escrita em poema é como arrancar correntes e também um grito de luta. Thata, que possui poemas publicados em diversas antologias e autora do livro Em Reticencias, diz que para ela escrever é a libertação de pensamentos, relatos de vida e vivencias. “A minha singularidade encontra um corpus de mais pessoas que tem a mesma sensibilidade ou que já passaram por algo semelhante”.

“Perdoa as mães negras
Se é que as mesmas
cometeram pecados
Matando seus filhos
Pra que não se tornassem escravos”
Thata Alves

 Quem são as mulheres da periferia?

Thata é uma das diversas escritoras periféricas espalhadas pelo Brasil.  Segundo o mapeamento Margens, produzido pela jornalista Jéssica Balbino, há 425 escritoras em todo território nacional. “A maioria está na região sudeste, sendo que a maior parte está em São Paulo, Rio de Janeiro, seguido por Minas Gerais, Bahia e Espírito Santo”, explica a pesquisadora.

O mapeamento faz parte da pesquisa de mestrado de Jéssica, também moradora da periferia, e teve como objetivo central descobrir quem eram as escritoras periféricas. Por meio da pesquisa, a jornalista conseguiu visibilizar muitas informações importantes como, por exemplo, os principais temas tratados nas obras dessas autoras.

“No geral, essas mulheres escrevem sobre ser mulher, o que passa por corpo, cabelo, dificuldades, abusos. Também passa por temas como casamento, filhos, maternidade. É muito latente nas obras de todas elas a questão do ser mulher”, explica Jéssica.

Além da questão do ser mulher, as escritoras também desenvolvem poemas sobre outros assunto. “É uma literatura de muita qualidade e as mulheres que produzem conseguem falar de qualquer tema”.

Mesmo com o vasto acervo de autoras e temas, as obras das escritoras periféricas são pouco publicadas por grandes editoras. “O que acontece [é] que tem muito aquela coisa de ver a literatura marginal e periférica como inferior, e não é, pois ela é tão boa, se não for melhor”, denuncia Jéssica.

Diante das dificuldades de se publicar em grandes editoras, a literatura marginal e periférica se propaga por meio dos saraus e da internet. Os saraus, além de ser um espaço de valorização das poetas que conseguem divulgar seus trabalhos e vender seus livros, também promove a conscientização política.

Thata é criadora do Sarau da Ponte pra Cá explica que esses espaços são válvulas para além do tráfico. “Os saraus na periferia dialogam diretamente com os moradores. Há uma responsabilidade muito grande quando o microfone está hasteado. Tem a mesma potência do calibre de uma bala de fuzil. Traz às pessoas alternativas e não mais só TV. Já que essa não retrata os negros e as pessoas que moram na periferia e quando faz é de forma pejorativa e vexatória”, enfatiza a poeta.

Como se não bastasse o preconceito de classe e raça que as autoras enfrentam ao promover seus trabalhos, essas também lutam contra o machismo, já que na literatura marginal os homens continuam tendo mais protagonismo que as mulheres.

A jornalista Jéssica Balbino realizou um levantamento sobre o número de mulheres que participaram de antologias nos últimos 15 anos. Ao analisar 61 obras, ela identificou que a participação feminina é 21% inferior a masculina. “As mulheres ainda são menos convidadas para eventos de literatura marginal e periférica tanto em grandes locais como em pequenos. Isso ainda é muito recorrente. Não tem equidade”, enfatiza.

No entanto, da mesma forma que resistem para enfrentar o preconceito que a sociedade possui com a literatura periféricas, as escritoras também resistem para lutar contra o machismo.

Por isso, elas estão se unindo para promover seus trabalhos, seja por meio de antologias 100% femininas como “Pretextos de Mulheres Negras” ou por meio de eventos de mulheres como o Sarau das Pretas e Slam das Minas.  “Quando você entende que até com companheiros tem que lutar contra o machismo, estar nesses espaços feministas nos fortalece para poder ter força para enfrentar algumas situações”, finaliza Thata Alves.

A matéria foi, originalmente, publicada no site Lado M (clique aqui).

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